Ameaças à Geodiversidade

Pedreira de calcário abandonada na serra d'Aire.
A geodiversidade pode estar sujeita a alterações promovidas por degradação natural ou por ações antrópicas.
As ações antrópicas sobre a geodiversidade, fragilizam-na de tal maneira que, muitas das vezes, levam à degradação das paisagens e ao esgotamento de alguns recursos naturais. Esta degradação tornou-se cada vez mais visível com a industrialização que obriga à sua utilização excessiva, pondo em risco o equilíbrio da geodiversidade e a sua conservação.
Os recursos minerais são essenciais para o desenvolvimento económico das sociedades industrializadas, que os utiliza de forma intensiva, mesmo sabendo que são recursos não renováveis, ou seja, sujeitos ao esgotamento das reservas naturais. A sua exploração pode ter impactes negativos ao nível da degradação da paisagem provocada pela exploração a céu aberto ou a extração de rochas e de minério que faz desaparecer fósseis e minerais de valor científico e pedagógico, assim como destruir formações e estruturas geológicas de interesse particular, como, por exemplo, grutas, algares, afloramentos, dobramentos, entre outros. Também não podemos esquecer que a extração destes recursos pode contaminar os solos e as águas superficiais e subterrâneas e a atmosfera com a libertação de gases e poeiras.
A construção de autoestradas ou de outras infraestruturas de grande vergadura, para além de degradar a paisagem, também tornam os maciços rochosos mais expostos fragilizados pelo desgaste. Consequentemente, pode ocorrer derrocadas e deslizamento de terras pondo a segurança das pessoas em causa.
Outro aspeto de grande relevância é a perturbação do equilíbrio dos ecossistemas costeiros provocada pela remoção de areias e pela edificação. Ambos os casos conduzem a processos de erosão acelerada, colocando o bem-estar humano, a fauna e a flora envolvente em perigo. Pelo contrário, deve-se minimizar a interferência humana, de maneira a permitir o equilíbrio natural para que ocorra naturalmente a dinâmica intensa do litoral. O mesmo problema se coloca nos rios, a acrescentar a construção de barragens que impedem a dinâmica natural dos cursos de água e, por conseguinte, a dos sedimentos.
A exploração intensiva de recursos biológicos, na agricultura intensiva e industrializada, com recurso a práticas insustentáveis, como as monoculturas ou as culturas de crescimento rápido, conduzem ao empobrecimento dos solos e à destruição da sua biodiversidade. A utilização de pesticidas e de fertilizantes químicos provocam, ainda, a contaminação os solos e a deterioração da qualidade das águas superficiais e subterrâneas.
As atividades militares também contribuem à degradação da geodiversidade e da biodiversidade, pelo facto de usarem maquinaria pesada, pela ocorrência de bombardeamentos e pela colocação de munições nos solos. Deste modo, estas ações afetam a qualidade dos solos e das águas superficiais e subterrâneas.
As atividades recreativas e o turismo também são promotores de impactes negativos sobre a geodiversidade, por exemplo, quando se fazem passeios com veículos motorizados que afetam a harmonia dos ecossistemas e, ao mesmo tempo, danificam as estruturas geológicas.
Considerando tudo aquilo que já foi referido, podemos constatar que não tem existido um planeamento estratégico eficiente e sustentável. 
Repare-se ainda que, apesar de o património geológico ser considerado um valor natural pelo Regime Jurídico da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, não tem consagrado a nível nacional um regime específico de classificação. Perante este facto, a sua proteção e a integridade das suas características só é possível quando integrado na classificação de áreas protegidas, no contexto territorial onde se insere. Assim sendo, a proteção e valorização do património geológico em Portugal Continental está, portanto, restrita aos cerca de 7% da área coberta pela Rede Nacional de Áreas Protegidas. Como tal, é urgente a implementação de políticas sustentáveis e de geoconservação de forma a minimizar os impactes negativos na Geodiversidade causados pela ação humana.

Brilha, J. B. (2005). Património geológico e geoconservação: a conservação da natureza na sua vertente geológica. Palimage.

Gray, M. (2004). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature. John Wiley & Sons.

MANTESSO-NETO, V. (2010). Geodiversidade, geoconservação, geoturismo, patrimônio geológico, geoparque: novos conceitos nas geociências do século XXI. Conselho Estadual de Monumentos Geológicos. São Paulo,[201.

Comentários

  1. Concordo plenamente com o exposto no texto. Para que a implementação de políticas sustentáveis seja uma realidade é também preciso educarmos todos os intervenientes nos diferentes processos, assim como a população em geral. O desconhecimento não deve ser desculpa para a tomada de decisões a nível administrativo (por exemplo as câmaras municipais) ou a nível de ações (exemplo dos grafites). Se as populações estiverem corretamente informadas, também elas poderão pressionar os decisores, a tomarem as corretas deliberações.
    Maria de Fátima Carvalheiro

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    1. Caras colegas,

      Também concordo com o exposto no texto, e com aquilo que a colega Maria de Fátima acrescentou em comentário.

      Devo ainda salientar que, na minha opinião, essa transmissão de conhecimentos aos municípios e outros orgãos administrativos, e à população em geral, com informação de carácter geral e de carácter local, é primordial na valorização e conservação da geodiversidade.

      Como exemplo refiro aquilo que aconteceu localmente no concelho onde vivo. Este concelho (Góis) é cruzado pela importante Falha Lousã-Seia (FSL) que teve um papel primordial no soerguimento da Cordilheira Central Portuguesa, e portanto na geomorfologia e clima do território continental português, tal como o conhecemos, com todos os impactes que isso tem a nível humano e nos ecossistemas.

      Mais precisamente, no local de Portela de Góis, encontramos um geossítio classificado, devido a aí poder ser observada atividade neotectónica nesta falha, sendo até agora o único local onde se sabe poder ser observada neotectónica na FSL. Deveria por isso ser naturalmente alvo de medidas de geoconservação. Infelizmente, verifica-se que a construção de uma casa neste local (devidamente legalizada pela C. M. Góis) veio a destruir quase totalmente a possibilidade de observação deste geossítio naquilo que teria importância poder ser observado.
      Penso que tal se deva exclusivamente a um total desconhecimento da importância do local em causa, e não a qualquer má-índole quer por parte de proprietários quer por parte do município.
      Assim se vê a importância máxima que a transmissão de conhecimentos pode ter...

      Cumprimentos,
      Carla Sofia Duarte

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